A carta que D. Manuel I escreveu aos Homens bons e governantes do burgo portuense, é referência obrigatória, e primordial, para todos aqueles que procuram na História, o começo, a essência e os motivos da fundação da Santa Casa da Misericórdia do Porto.
A Santa Casa da Misericórdia do Porto, foi assim fundada em 14 de Março de 1499, e constituída na Ordem Jurídica Canónica, é uma associação de fieis que surge com o objectivo de satisfazer as carências sociais e praticar actos de culto católico, de harmonia com o seu espírito tradicional, enformado pelos princípios da doutrina e moral cristãs.
D. Manuel I, o Rei Venturoso, na sua carta exprimia-se deste modo:
“ (…) Cremos que sabere(i)s como em esta nosa çidade de Lixboa se ordenou huma confraria pera se as obras da misericórdia averem de cumprir, e espeçialmente acerqua dos presos pobres e desemparados que non tem quem lhes Requeira seus feitos nem socorra as suas necessidades E asy em outras muytas obras piadosas segundo mais largamente em seu Regimento se comthem do qual vos mandamos dar trelado E por que as obras da misericordia, que per os ofiçiaes desta confraria se cada dia fazem Redumdam em muyto louvor de deus de que nos tomamos muyto comtentamento por se em nosos dias fazer folgaríamos muyto que em todalas cidades vilas e lugares primçipaees de nossos Regnos se fizese a dita confraria na forma e maneira que no dito regimemto se comthem e porem vos encomendamos que comsyramdo quamto esto he serviço de deus vos queiraees ajumtar e ordenar como em esa çidade se fezese a dicta confraria E alem de em elo fazerdes serviço a deus e cousa de que amte ele avere(i)s muyto merecimento nos lo aguard(e)ceremos muyto e teremos em serviço srypta em lixboa a xiiij dias de Março Vicente carneiro a fez de 1499.
No Verso lê-se:
Por El-Rey aos juízes Vereadores, Procurador, Fidalgos Caualeiros, e Homes boos da sua cidade do Porto”
A recomendação régia, expressa naquela carta, a demonstração de espírito cristão, de caridade e solidariedade social, reinante na corte portuguesa, alicerçado e inspirado pela espiritualidade intensa da Rainha D. Leonor, foi determinante para que os homens do Porto, se organizassem. A sua motivação estava no culto do amor a Deus. A sua essência, a prática de actos piedosos, consubstanciados, genericamente nas Obras de Misericórdia, consideradas como serviço do reino e, sobretudo como serviço de Deus.
Inicialmente instalada na Capela de Santiago, no claustro velho da Sé, que se tornou assim na "primeira sala de despacho", a Misericórdia do Porto, cinco décadas passadas, vai fixar-se naquelas que são ainda hoje as suas actuais instalações, localizadas na Rua das Flores.
Foram muitas as dificuldades enfrentadas pelos homens bondosos do burgo portuense que administravam a Misericórdia, nos anos do seu alvorecer. Não fora a protecção carinhosa de D. Leonor e, ainda mais, a magnanimidade do rei D. Manuel, que lhe conferiu muitos privilégios, e ter-se-ia perdido.
O primeiro grande impulso para o seu alargamento e consolidação veio à Misericórdia pela carta régia de 15 de Maio de 1521, em que o mesmo Monarca, poucos meses antes de morrer, verificando que a “Confraria da Misericórdia da cidade do Porto” era “bem regida e governada”, e se não dispensava mais caridade aos pobres era por não ter rendimentos, ordenou a anexação dos Hospitais de Rocamador, Santa Clara e os de Cima de Vila, com todas as suas rendas e heranças que anteriormente eram geridas pelo município.
De entre os muitos hospitais e albergarias, já existentes no pequeno aglomerado portuense na Idade Média, os que passaram à Misericórdia por força da Carta Régia, trouxeram-lhe importantes rendas e valores, proporcionando-lhe uma actividade estável e muito alargada, resultando numa renovação visível do entusiasmo e da confiança, por parte dos elementos da sua Mesa Administrativa.
Desde sempre, a Santa Casa da Misericórdia do Porto teve o apoio de Benfeitores. O Rei D. Manuel, bem como a Rainha D. Leonor, além do carinho particular demonstrado na concessão de muitos privilégios e isenções, fizeram-lhe várias doações e esmolas. Também muitos Benfeitores deixaram os seus bens à Misericórdia como é exemplo a figura de D. Lopo de Almeida, fidalgo riquíssimo, sacerdote, capelão do Rei D. Filipe II, falecido em Madrid a 29 de Janeiro de 1584, que legou à Misericórdia do Porto a maior parte dos seus bens e rendimentos, que constituindo-a sua universal herdeira na pessoa dos pobres, a quem ordenou, entre outras, a construção e manutenção de um hospital, futuro hospital de D. Lopo e de uma Capela (Capela-Mor da Igreja Privativa).
Nos seus estabelecimentos e em toda a sua actividade assistencial e administrativa, a Misericórdia do Porto realizava os seus fins – o exercício de todas as Obras de Misericórdia, dela beneficiando, não só os habitantes da cidade, mas também os que lhe apareciam, especialmente para cuidados de saúde, vindos de muitas terras distantes.
Também no decorrer dos anos, e depois da morte do Rei D. Manuel, foram muitos e variados os entraves que a Misericórdia sustentou contra a sua acção, e privilégios. De par, surgiram também, de quando em vez, dificuldades financeiras. Mas, e apesar de tudo, os caminhos da caridade continuavam a ser percorridos pela Santa Casa, ganhando novas direcções, atendendo todas as necessidades, tantas como as que cabem nesse código maravilhoso e que dele se ramificam as Obras de Misericórdia.
Na segunda metade do século dezoito, a população do Porto crescera muito e o Hospital de D. Lopo já não era suficiente para recolher os doentes que, de toda a cidade a ele acorriam. Em 1769, o arquitecto inglês John Carr tem pronto o projecto que a Mesa da Misericórdia lhe encomendara e, em 15 de Julho do ano seguinte, foi benzida e lançada a primeira pedra do que seria o Hospital de Santo António. O terreno fora adquirido pela Santa Casa para esse fim. O projecto, que não chegou a executar-se sequer em metade, era de uma grandiosidade assombrosa.
Nos cofres da Santa Casa não havia dinheiro. Não hesitaram, contudo, os Irmãos, em iniciar a construção, pois sabiam que a caridade opera os milagres mais estrondosos e que o Porto foi sempre, desde o seu alvor, a terra de altruísmo, de solidariedade, da caridade autêntica, afinal.
Os primeiros doentes, em número de 150, transferidos do Hospital de D. Lopo, deram ali entrada a 19 de Agosto de 1779.
Em finais do século XVIII a Misericórdia do Porto, já com dois mil Irmãos inscritos no seu Tombo, era, “um monumento de piedade para todos os miseráveis”.
Nessa época, já a Misericórdia administrava, para amparo dos pobres e refrigério dos doentes, além do hospital denominado “Novo” (o de Santo António), o Hospital de D. Lopo na Rua das Flores, o dos Entrevados em Cima de Vila, o das Entrevadas em Santo Ildefonso, o dos Lázaros e das Lázaras, bem como o Recolhimento de órfãs de Nossa Senhora da Esperança, a Roda dos Expostos, na Rua dos Caldeireiros, além de prestar dotações à orfandade e à viuvez, de socorrer com médicos, enfermeiros e remédios os presos da Cadeia Civil do Porto, aos quais oferecia também a assistência religiosa, de tratar gratuitamente mais de dois mil doentes cada ano e, também anualmente, amortalhar e dar enterro cristão a mais de quatrocentos mortos.
A onda de caridade, porém, ia crescendo, pois a generosidade dos portuenses ia aumentando. E é assim que no século XIX, sobretudo no último quartel, e no primeiro do século XX, outras instituições vieram a enriquecer a obra assistencial da Santa Casa, alargando-se sobre todos os que precisavam do seu carinho: foi o caso do Estabelecimento Humanitário do Barão de Nova Sintra, o grandioso Hospital de Alienados do Conde de Ferreira, a administração do Hospital do Bonfim ou de Guelas de Pau, o Instituto para Surdos Mudos Araújo Porto, o Asilo de Cegos de S. Manuel, o Lar de Monteiro dos Santos, o Bairro Monteiro dos Santos e a sopa com o nome do mesmo Benfeitor, a Escola de cegos do Porto, o Sanatório-Hospital de José Rodrigues Semide, o Hospital para convalescentes da quinta da Prelada, o Lar Pereira de Lima para idosos invisuais. Mais ainda, a instituição e organização dos Socorros Domiciliários, que se estendiam por toda a cidade, dividida em sete zonas (1901), a sua notável cooperação no ensino da Medicina e as suas especialidades (o Hospital de Santo António serviu de escola médica durante 130 anos), o relevante apoio prestado à saúde, com a sua Escola de Enfermagem, e às alunas vindas do interior, com o respectivo lar, a Instituição da Cruzada de Sangue, a sua contribuição aos problemas da deficiência visual com a criação da Imprensa Braille, e tantas outras acções e fundações benemerentes, com as quais a Santa Casa deu corpo ao conteúdo do compromisso primitivo e que apontava para o exercício continuado e perpétuo de todas as Obras de Misericórdia.
Durante o Século XX, a Misericórdia procedeu à revalorização, aproveitamento e enriquecimento do seu património, com vista à obtenção de maior rendimento e como contributo à resolução das carências de habitação na cidade, com a construção de vários e grandes blocos residenciais, localizados em diversos pontos, bem dimensionados, modernos, com as características indispensáveis à melhoria da qualidade de vida dos seus inquilinos. Também deu o seu contributo ao turismo e à ocupação sadia dos tempos livres, com a instalação de um parque de Campismo, na Quinta da Prelada. Desenvolveu a alargou a sua prestação ao ensino e à protecção da orfandade, construindo novos pavilhões no colégio de Nossa Senhora da Esperança e tornando-o uma obra ímpar na cidade. Criou mais uma unidade para idosos na Quinta do Marinho. Deu continuidade ao desenvolvimento da sua actividade no campo da saúde, construindo o Hospital da Prelada.
Em 1976 face à situação sócio-política os Hospitais de Santo António, Conde de Ferreira e Rodrigues Semide foram nacionalizados, passando para a administração do Estado, perdendo a Misericórdia do Porto uma das suas grandes áreas de intervenção, a saúde.
Mais recentemente, construiu-se de raiz o Lar Nossa Senhora da Misericórdia, recuperou-se um imóvel que se transformou num estabelecimento denominado “Casa da Rua”, destinado ao apoio da população sem-abrigo, reconverteu-se a denominada “Obra de Recuperação de Mulheres”, numa casa abrigo para mulheres vítimas de violência doméstica agora designada “Casa da Stº. António”, retomou-se o Hospital Conde de Ferreira, agora designado Centro Hospital Conde de Ferreira. Foi ainda estabelecido um protocolo com a Direcção Geral dos Serviços Prisionais, para a gestão de alguns serviços do Estabelecimento Prisional Especial de Stª Cruz do Bispo, que entrou em funcionamento em meados de 2005.
De entre todas as Misericórdias, a do Porto é não só das mais antigas, mas também das mais importantes, pelos seus numerosos estabelecimentos e quantidade de utentes, pelo seu património vasto e valioso, pela sua história digna e proeminente.
Actualmente a acção assistencial da Misericórdia do Porto, diversifica-se em algumas áreas muito importantes: terceira-idade, saúde, deficiência, pobreza e exclusão social, habitação, cultura, ensino e formação profissional, lazer, etc.